Segredos da Pluma - Pesca à pluma/mosca/flyfishing em Portugal.

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"Um viajante sábio, nunca despreza o seu proprio país."   Carlo Goldoni

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Carpas e Formigas
Escrito por Pedro Cordero   
Quarta, 28 Março 2007 22:55

Introdução

Anoitece rápido atrás de um dia de formigas na Estremadura. Os céus cobrem-se de mil cores, abrem-se as portas do Outono e a generosidade das primeiras chuvas com doces tons dourados, derivados dos raios solares, fazem com que estes tristes dias aumentem a minha ânsia de pescar, chegaram as formigas!


Se me perguntassem qual o insecto emblemático da comunidade da Estremadura, sem duvidas que afirmaria que é a formiga! Existem outros de igual importância, como os gafanhoto, as Ephoron do Guadiana os plecópteros e tricópteros das gargantas truteiras..., mas no geral, estas formiguitas, mais concretamente os zangões e rainhas no seu estado alado, são os que despertam nas minhas recordações inesquecíveis, também nos meus amigos e companheiros posso observar o entusiasmo quando falam este dito festival, nos que depositam esperançar, ilusões: são estes, e muitos mais, os sentimentos que nos acompanham mostrando-se protagonistas e causando nos plumeiros desta região um acto reflexo: pescar ciprinídeos!

Não sei porque motivo o ácido fórmico causa nos peixes um apetite semelhante a gula, suponho que será uma questão de gostos, mas posso tentar dar uma respostas mais ou menos convincente, creio que é a necessidade de consumir grande quantidade de proteínas, indispensáveis para o seu desenvolvimento, o que os conduz à loucura; outro desencadeante, não menos importante, é que, desgraçadamente para eles, estes banquetes são escassos ao longo do ano, e a circunstância agravante deste comportamento é sem dúvida que necessitam de ingerir grandes quantidades de comida num curto espaço de tempo, estes factores, em conjunto com muitos outros, são os que ditam um dos nossos mais apreciados dias de pesca atrás destes magníficos peixes.

Todos estes conjuntos de situações, fazem com que os nossos amigos e amigas tenham que alimentar-se dessa forma tão ávida, incluindo os difíceis e grandes exemplares menosprezam a nossa capacidade de visão e deleitam-nos com a sua presença, fazem-no exibindo as suas grandes bocas ao alimentarem-se na superfície, são magnificas bocas alaranjadas que não param de engolir formigas imóveis na superfície para seguidamente mostrarem o seu imponente corpo, iluminado pelos raios do sol de Outono, são estas quentes explosões de vida, tão esperadas no inicio do Outono, os estimulantes da “caída” de formicideos. Nas horas posteriores às primeiras tempestades da estação húmida e com a ajuda dos raios solares, as formigas começam um processo que não me deixa de surpreender ano após ano, o seu metabolismo é activado e as suas hormonas começam por coloca-las em marcha, e todas, em perfeita harmonia enchem os céus da nossa comunidade com o seu voo desajeitado, se bem que as vezes somos surpreendidos por “eclosões” de grandes formigas no mais caloroso dos verões, ou daquelas outras mais pequenas no entardecer do mesmo. Visto que as formigas não são todas iguais, as diferentes espécies “eclodem” espaçadamente no tempo, suponho que causado por diversos factores ambientais e sobretudo comportamentais, motivos mais que suficientes para que a natureza, sempre sábia, ofereça a cada espécie de formigas as condições ideais para concluir com êxito o seu ritual reprodutivo

 

 

 

O dia e o azar brincam connosco

Antes do dia citado, muito antes de que nos vistamos de gala com toda a indumentária, deveríamos de ter em conta factores como a interpretação do meio juntamente com a complexa máquina que o move; a observação do conjunto dos seres que habitam as àguas é fundamental, e este estudo nunca vem por mal na hora de diminuir as possibilidades de fracasso frente ao mais problemático de todos os factores restritivos com que nos enfrentamos: o “saber fazer”, que ao contrario do que muitos pensam, será este saber fazer que nos proporcionará uma vantagem significativa.

Climatologia, o saber fazer e o estudo do meio, são os três aspectos que tomam um protagonismo imenso na nossa fixação, que torna o nosso tempo limitado e nos levam ao frustrante término de não poder estar no lugar certo no momento exacto no qual estes magníficos exércitos levantam voo, e que para nossa sorte, muitas delas caem acidentalmente na agua provocando nos peixes uma vontade enorme de não parar de comer, debatendo-se estas entre a vida e a morte… e elas não sabe, este é o seu fim, visto que vão aparecer afogadas ou no estômago de qualquer oportunista.

Não devemos enganar-nos quando “prevemos o futuro”, cada eclosão leva o seu tempo. Pode parecer estranho o que vos conto, mas para mim é igual complexo imaginar como uns seres tão pequenos, podem originar uma explosão de vida à sua volta em tão pouco tempo; as vezes penso que a natureza e os seu “produtos” são elementos matemáticos e é a nós que estes fenómenos se apresentam de forma incompreensível, visto que normalmente damos uma explicação geral e simplista à maioria dos comportamentos, aos quais atribuímos a qualificação de “estímulos” e que sem querer ver mais alem, não nos interessa a complexidade implícita nesta série de sequências causadas pelos seres que nos rodeiam… mas pronto, isso será tarefa de outros, e não quero meter-me em assuntos que neste momento não saberia abordar e é que… não será que somos nós os estranhos num mundo calculando a perfeição? Estarão de acordo comigo visto que quase não nos movemos segundo as estações do ano, nem pelo alimento, fazemos sim por uma infinidade de causas que nada têm a ver com o natural. Este exemplo mostra que temos de saber interpretar as mudanças do nosso meio envolvente, como se destes dependessem a nossa subsistência, visto que de alguma forma temos de o fazer para podermos desfrutar da nossa paixão.
 

Centrados no lugar e momento precisos

Como dizia anteriormente, as formigas caem na água e desencadeiam a gula nos ciprinídeos, tomando como referência neste artigo as carpas e deixando os barbos par a outra ocasião, vou tentar montar a forma mais adequada para a sua captura, narrando de igual forma as minhas saídas de pesca.

A importância fundamental para que uma jornada comece e conclua com sucesso é que as nossas primeiras intenções se foquem na procura de lugares onde se possam produzir as maiores eclosões destes insectos, procurar as zonas menos visitadas por pessoas, com a possibilidade de vermos os exemplares de maior peso. Temos de procurar as nossas amigas (formigas e carpas).
 

Formas, maneiras e equipamentos

  
O equipamento a utilizar deve adaptar-se a cada um, eu aqui dou apenas a minha opinião pessoal: sempre que pesco em lagos de pequenas dimensões, utilizo canas ligeiras, linhas 5 na maioria dos casos, mas verão ao longo do tempo como é possível passarmos bons momentos com uma cana para linha 3, e até de linha 0, com carpas e barbos de um par de quilos, noutras ocasiões, quando os exemplares pretendidos possuem um tamanho respeitável, para cima dos 4 ou 5Kg, utilizo canas par alinha 8 com linhas de numeração inferior para diminuir os movimentos e impactos bruscos derivada de equipamentos mais potentes, e é o facto de utilizar canas potentes e de numerações altas que tornam mais fácil e possível a luta com grandes exemplares e ter a possibilidade de tirar uma foto.

 

A pratica de este tipo de pesca começa pela localização dos peixes na superfície, mas precisamente das suas bocas, feito basicamente fácil, ainda que a aproximação correcta de forma a que não denunciemos a nossa presença seja mais complicado, visto que estes peixes, extremamente selvagens, são muito assustadiços; o seguinte logicamente é colocar a imitação o mais perto possível das suas bocas, porque não são animais que se vão deslocar por apenas una formiga que esteja a meia distância, sobretudo porque quase não vêm a mais de 30 ou 40cm de distância dos seus desorbitados olhos, e não é que não vêem, senão que… não olham! Seguindo simplesmente a sua trajectória elíptica ou linear na maioria dos casos, ingerindo este seres rendidos; algo que é muito importante é que a apresentação da pluma se ajuste á sua vontade e forma de comer na superfície, porque ainda que pareça mentira poderia demonstrar como há determinados locais em que se as carpas recusam a pluma mesmo no ultimo segundo, como se fossem as trutas mais educadas do mundo, INCRÍVEL MAS CERTO! Aqui sim devemos averiguar a forma como comem, as vezes é necessário que a imitação se mova um pouco, outras que simplesmente derive de forma estática à sua frente… são muitas as apresentações e muitas as carpas que pescarão, daí que observem com atenção tudo á sua volta. A forma de apresentar uma pluma seca na pesca de ciprinídeos que maior número de capturas me proporcionou em quantidade e em qualidade, é uma apresentação de forma a que a pluma caia a uns dois metros à frente na trajectória que supostamente a carpa segue enquanto esta se alimenta, para posteriormente recolher de forma suave a imitação até que esta fique a uns 30cm do local onde está a engolir as formigas, e procura que não se produza nada anti natural, como movimentos bruscos, ou ruídos, apenas que apareça ali, na trajectória do peixe como se por magia. Assim eliminaremos ruídos derivados do lançamento e forma de apresentação será o mais parecia ao natural, uma apresentação estática.

As fotos que ilustram o artigo foram tiradas à uns anos pescando carpas com formiga, no pensem que esta pesca é algo fácil, é uma questão de paciência, quero também advertir que houveram dias em que nem sequem me deixaram aproximar o suficiente para conseguir um lançamento, observarão como comem as grandes carpas, e também observarão qual o limite da distância máxima de segurança e preparação para o lançamento ser perfeito e verão a desaparecer a grande carpa à vossa frente, outras vezes sofrerão rejeições descomunais e nada podemos fazer frente à sua perspicácia já que contam o seu peso com anos de vida… e isso não torna nada fácil enganar um ser tão majestoso.
 

O dia "H"

O dia começou sem ver um único peixe, mas com a segurança de que aqueles seres iriam emergir das profundezas para engolir as formigas, sabíamos que estavam ali atrás, a controlar ao longo do ano os seus movimentos e também sabíamos que as formigas iriam marcar presença, era o dia e a hora, depois de desfrutar de um ambiente circundante muito calmo começamos a sentir pequenos seres revoltados à nossa volta, formigas no céu! As nossas caras mudaram de um apagado entusiasmo para um libertar de esperança e nervosismo, e, em questão de segundos, observei centenas de tomadas na superfície, aquelas enormes carpas aceitaram o banquete, as formigas enchiam o céu e grande quantidade de elas caiam na água, o silêncio é o nosso maior aliado e uma apresentação delicada por muito que desajeitadas que apreçam as carpas é sempre bem vinda, tenham em conta que utilizar material pesado e linhas ligeiras não nos permitirão muitos falhanços na hora de apresentar, e toda a nossa destreza será necessária, andar atrás de 10 ou 12 carpas com pesos entre os 9 e os 15KG, durante uns eternos minutos, até conseguir um ponto de “tiro”, é algo taquicardíaco, elas, enquanto engolem formigas às dezenas e os sues movimentos te fazem perder a calma, sendo uma pesca nada recomendada a pessoas muito nervosas, simplesmente dá medo um arranque de um animal com este peso e sobre tudo aguentar até ao momento em que a nossa imitação é sugada por semelhante animal, não é fácil o que vos conto, mas se tomarem esta referência ficará gravado na vossa memória para sempre.

 

 

 

Na minha cabeça esta é uma das mais belas imagens que conservo, inapagável… formou-se uma cortina de partículas de agua e sobressaltadas pelo cravar movem-se ao sabor do vento, haviam abandonado a minha linha tensa como consequência do cravar, no outro lado, um grande peixe pescado à pluma, o carreto salpica tensão e eu sem perder de vista a linha descrita pela linha observo como se dissipa a cortina do cravar, deslumbro um majestoso arco íris através dela, graças a tudo isto e ao que, o meu arco íris, que não quis perder tal momento tenho em minha memoria uma quente recordação, um amigo que me acompanha e igual que eu desfruta com a solidão mística que embriaga o calmo recanto onde nos encontramos e é só o interrompido recolher da linha que dissipa essa natureza que nos rodeia, um som que não nos é alheio ao momento, formava parte do mesmo… creio que o José Luis não se esquecerá desse dia, ainda que passo um ano, ainda me tremem as pernas com esta recordação, e de juntamente desfrutar com alguns companheiros como meninos a brincar no barro…

O que irão provar com estes peixes, fará com que se tornem cúmplices, uma vez mais, dos nossos lagos e pântanos, Setembro / Outubro é a data, o dia concreto é outra coisa, certamente não se vão arrepender, um abraço e até à próxima.

DESFRUTA da beleza natural, CAPTURA, FOTOGRAFA e SOLTA, e sobre tudo recorda que o prazer de imitar uma vida não tem como fiz destruir outra… estas queridas jóias com barbatanas oferecem-nos uns bonitos instantes com a sua captura.

 
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