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Materiais Naturais para a Montagem de Plumas
Escrito por José Custódio   
Sábado, 09 Janeiro 2010 22:29

Os materiais naturais para montagem de plumas podem-se dividir em dois grandes grupos:  as penas de aves e os pêlos de animais.

Podemos dizer que as penas e os pêlos são e continuarão a ser a principal matéria-prima e base de trabalho para um montador de plumas, sobretudo quando falarmos na montagem de plumas para salmonídeos.

Nestes dois grandes grupos, as penas e os pêlos, existe uma infindável variedade de ambos os materiais que podemos utilizar, tornando-se, por vezes, um pouco difícil fazer uma escolha para a montagem de um ou outro tipo de plumas.

Neste artigo serão tratados os principais e mais comuns tipos de penas e pêlos que constituem algumas das plumas clássicas que utilizamos em muitas jornadas de pesca, mas que também podem ser utilizadas nas nossas criações repletas de criatividade.

 

As Penas

As penas podem variar em tamanho, largura, rigidez, densidade, cor, etc. É importante ter-se a noção de que nem todas as penas são iguais, especialmente quando falamos de penas para a montagem de plumas.

Se tomarmos como exemplo uma montagem de uma efémera clássica, o material principal utilizado são as penas de galo. Neste caso, são utilizados os pescoços de galo (cock neck) ou então dos rabos de galo (cock saddle), de onde provêm as fibras ideais para a sua construção. Estas penas provenientes de pescoços ou rabos de galo podem ser adquiridas em diferentes tamanhos ou cores. É de salientar que o saddle é mais rígido do que o neck, por vezes esta pequena característica torna-se importante na montagem de alguns tipos de plumas, e será o montador que irá tomar a decisão do tipo de pluma a utilizar.

Mas nem tudo é simples, ou melhor, muitas vezes gostamos de complicar, ainda que exista um porquê de assim ser. Por exemplo, existem vários factores a ter em conta quando se escolhe uma pena para fazer um hackle ou um rabo de uma efémera.

A partir do momento em que consultamos qualquer catálogo, vemos que existem muitos tipos de pescoços de galo e a diferença entre eles, para além do preço, está na qualidade, normalmente designada por ”grade” (ou grau, em português).

Uma pena de grau #1 é uma pena de grande qualidade. Claro que, para um conhecedor, uma pena de grau #1 será uma pena de eleição, pois sabe que, no momento de se montar a pluma, o hackle vai ficar uniforme, com a densidade certa para uma boa flutuabilidade, mesmo quando a pluma é montada num anzol nº20 ou até mesmo em anzóis mais pequenos.

É claro que, quanto melhor for a qualidade das penas e o respectivo grau, mais se nota a diferença entre as mesmas e, claro está, também se notará a diferença do preço.

É importante salientar que não quero dizer com isto que não se possam montar plumas secas de qualidade ou eficazes, com penas provenientes de pescoços ou rabos de galo de grau #2 ou #3.
Vejam agora algumas fotos dos materiais que acabamos de referir.

 Penas de pescoço de galo

 Penas de rabo de galo

 Pluma seca com hackle em pena de galo

O CDC  (cul de canard)

Ainda nas penas, podemos destacar o CDC ou em bom português “cú de pato”. Como o próprio nome indica, estas penas são obtidas da parte traseira de algumas espécies de patos. Estas penas são indispensáveis no estojo de qualquer montador de plumas. Devido às suas características, são penas com um elevado grau de flutuabilidade, sendo ideais para montar plumas discretas, como, por exemplo, pequenas plumas que se podem utilizar em troços de rio com pouca corrente.

As fibras destas penas podem ser utilizadas não só para garantir flutuabilidade a uma pluma seca, mas também podem servir para tornar uma ninfa ou uma emergente mais atractiva, tudo dependendo da forma e da quantidade de DCD que é utilizada. Um erro comum é pensar-se que ao ser utilizado muita quantidade de CDC a plumas terão melhor flutuabilidade, mas não é bem este o caso, já que bastam algumas fibras espalhadas sob a película de água para criar tensão e não permitirem que a pluma afunde. O CDC poderá também dar um maior realismo e “mobilidade” às nossas ninfas, e em alguns dos casos as ninfas/emergentes afundam levando presas nas fibras de CDC pequenas bolhas de ar que dão a sensação que a pluma se está a deslocar rumo à superfície.

Também estas penas se encontram no mercado nas mais diversas cores e também com qualidades diferentes. É importante adquirir CDC de boa qualidade, especialmente quando o objectivo é criar plumas secas com grande flutuabilidade.

 Penas de cul de canard

 Pluma seca com asas em CDC

 
 

Penas de Faisão

Outra das penas que nos ajudam a montar verdadeiros clássicos, são as penas de cauda de faisão. Estas fibras podem ser utilizadas para várias partes da nossa pluma. Podemos utilizar, por exemplo, para fazer as caudas, patas, corpos e o saco alar de uma ninfa. Aqui, mais uma vez, variedade não falta, não tanto na qualidade, mas sim no que diz respeito às cores, podendo ser adquiridas em cores naturais ou tingidos (de oliva, laranja, etc).

Um dos verdadeiros clássicos que podem ser montados a partir das penas de cauda de faisão é a “Pheasent Tail Nymph”. Arrisco-me mesmo a afirmar que, se perguntassem aos pescadores mais experientes para escolherem da sua caixa uma única ninfa, 50% desses pescadores a escolheriam.

 Penas de cauda de faisão (Pheasent Tail)

Pheasent tail nymph (uma das muitas versões) 

 

 

Penas de Pavão

Outra das penas muito utilizadas pelos montadores de plumas é a pena da cauda de pavão. Quantos de nós não ficamos deslumbrados a ver a beleza da cauda de tão bela ave? Pois bem, parece que também os peixes ficam maravilhados com a sua beleza, ou melhor, com o seu brilho. Por isso, é outra das penas utilizadas em muitas das montagem clássicas para a truta, tanto de ninfas secas como afogadas.

Uma das plumas clássicas mais conhecidas que tem como material principal na sua construção as fibras da cauda de pavão, é a ninfa Prince (Prince Nymph). Quem nunca pescou com uma prince? Este é outro dos verdadeiros clássicos que pode ser feito a partir de materiais simples de obter, mas neste caso a verdadeira definição de clássico está mesmo na sua eficácia.

Pena de cauda de pavãoPrince nymph 
  

 

Biots

Existem ainda outras penas, ou, neste caso, partes de penas, que permitem adornar as nossas plumas. Não podemos deixar de falar nos biots de ganso (gosse biots), que são os mais comuns, ainda que existam biots provenientes de muitas outras espécies de aves, e são obtidos a partir das penas primárias da asa de ganso. Se pegarmos numa destas penas, vamos ver se, na sua parte anterior, existem pequenas fibras de grande rigidez, as quais podemos utilizar em determinadas situações, como, por exemplo, na construção de caudas, antenas e patas das nossas ninfas, podendo também ser utilizadas nos corpos tanto de secas como ninfas. É de salientar que na hora de montar a pluma podemos dar relevo ou não na segmentação do corpo, dependendo isto da forma como o biot é preso no anzol.

Gosse biots 

Ninfa de plecoptero com cauda e patas em gosse biots

 

Marabou 

Por último, mas não menos importante, podemos destacar as penas de marabou. Este é um bom exemplo de substituição de uma pena originalmente utilizada na criação de alguns clássicos, porque hoje em dia estas penas não são provenientes da ave com o nome marabou, mas de outras aves onde se conseguem obter penas semelhantes.

A principal característica das penas de marabou é a sua grande mobilidade dentro de água. Podemos dizer que a pluma trabalha na água mesmo estando parada, sendo, por isso ,um dos componentes utilizados em plumas para a pesca de predadores ou então de salmonídeos, sempre que pudermos, com streamers, aproveitar o seu instinto predador.

No que diz respeito ao marabou, apenas vamos mostar um clássico, o tão afamado Wolly Bugger. Claro que podemos utilizar estas penas de marabou noutros tipos de plumas, incluindo ninfas, como, por exemplo, ninfas de libélula.

Penas de Marabou

Wolly bugger

Como devem calcular, existem imensos tipos de penas com as mais diferentes características e utilizações, como, por exemplo, a galinha-da-guiné, perdiz, galinha-da-índia, avestruz, entre muitas outras.

Mas, para aqueles que querem montar as suas primeiras plumas, podem ter como base as penas que foram aqui tratadas, já que, com estas, podem montar plumas simples e muito eficazes. Como na montagem de plumas o céu é o limite, podemos utilizar as penas que quiserrmos e dar asas à nossa imaginação.  E preparem-se para ficarem impressionados com vocês próprios.

  

Os Pêlos

De igual forma que nas penas, também no que diz respeito aos pêlos existe uma grande variedade de materiais. Por exemplo, o pêlo de coelho e de lebre possuem diferentes características e, além disso, também temos várias partes do corpo com pêlos de diferentes características.

Mais uma vez, vamos abordar apenas dos principais e indispensáveis tipos de pêlo, alguns deles com características que os tornam únicos para a montagem de diferentes tipos de plumas. Começaremos por falar do tradicional pêlo de coelho, muito fácil de conseguir, mas que continua a ser um dos materiais mais utilizados na montagem de plumas, sobretudo ninfas.

Normalmente o pêlo já vem seleccionado e em dubbing pronto a utilizar, por vezes em distribuidores com diferentes cores, em que temos a possibilidade de escolher segundo o tom que queremos dar à nossa ninfa.

Devem estar a perguntar, o que é o dubbing? O dubbing não é mais que o material resultante da “trituração” e mistura de alguns pêlos de animais, da mesma espécie ou até mesmo de espécies diferentes. Este dubbing é aplicado no fio de montagem e, posteriormente, enrolado à volta da haste do anzol, permitindo que seja criado o corpo do insecto que pretendemos imitar.

Pelo de Coelho

Um dos clássicos que se pode fazer com o pêlo de coelho, é a famosa e mundialmente conhecida ninfa orelha-de-lebre (Hares´s Ear Nymph). Apesar de algumas variantes desta montagem possuir um aspecto estranho e muitas vezes pouco parecido com larvas de insecto verdadeiras, ou com insectos no seu estado emergente, é muito eficaz na pesca de diversas espécies de peixes.

Se referi anteriormente que, ao perguntar aos pescadores que ninfa escolheriam da sua caixa, 50% escolheria uma Phesant Tail, agora posso dizer que os restantes 50% escolheriam uma ninfa orelha-de-lebre. Isto se falarmos só das ninfas que são simples e verdadeiros clássicos.

Dubbing de coelho

Cara de lebre

Ninfa orelha de lebre

 
 

Claro que também podemos utilizar o pêlo de coelho de outra forma, ou seja, em vez de o utilizar em dubbing, podemos utilizar finas tiras de pele com o pêlo e fazer streamers que podem ser utilizados na pesca de truta e outros predadores, como o lúcio e o achigã.

Pêlo de Veado

Chega agora a vez de se falar do pêlo de veado (deer hair). O pêlo de veado é outro pêlo que se encontra sempre no meio dos materiais de montagem de plumas de qualquer montador.

Com este pêlo, podem fazer-se diferentes tipos de plumas, tanto para ciprinídeos, como samonídeos, passando pelos predadores como o lúcio e o achigã.

A principal característica deste pêlo é ser um pêlo oco, ou seja, é um pêlo com muita flutuabilidade. O pêlo de veado pode ser obtido através da cobertura de inverno do animal ou através da cobertura de verão. A única diferença entre os dois é o tamanho do pêlo, pois de inverno o pêlo é maior e de verão é bastante mais curto. Se com os pêlos de inverno podemos fazer poppers, divers e sliders para o achigã e o lúcio, com a cobertura de verão podemos montar os famosos tricopteros em pêlo de veado.

Notem que existem pêlos de espécies semelhantes ao veado. Existem pêlos com diferentes grossuras e densidades, podendo os mais finos ser utilizados para montar plumas de pequeno tamanho para a truta, muitas vezes depende da localização do pêlo, por exemplo o pêlo das costas do veado é diferente do do peito.

Este pêlo de veado existe em diferentes cores naturais ou então com coloração artificial, o que permite utilizá-lo com mais facilidade para as mais diversas espécies.

Pêlo de veado cobertura de verão e inverno 

 Diver em pêlo de veado

 
 

  

Rabo de veado (bucktail)

O pêlo da cauda do veado (bucktail) que é mais fino e rígido, encontra-se disponível em diferentes cores e é ideal para a montagem de plumas com pouca flutuabilidade, como é o caso dos streamers. Não é um pêlo com grande mobilidade, se o compararmos com o pêlo de coelho, mas a sua rigidez permite criarmos imitações de peixes com algum volume, o que pode ser uma grande vantagem na pesca de algumas espécies.

Bucktail

Streamer em bucktail

  

Rabos de Raposa (Fox Tail)

Este material é um material bem mais fino (ainda que os haja provenientes de outros animais ainda mais finos) e mais maleável que, por exemplo, o bucktail. Quando necessitarmos de fazer pequenos streamers, podemos perfeitamente optar por este género de materiais. Como resultado da sua utilização, teremos streamers com movimento, o que irá, sem qualquer dúvida, chamar a atenção do peixe.

Rabo de raposa

Streamer em rabo de raposa

 

Podemos dizer que foram abordados os principais materiais naturais para a montagem das plumas mais simples e de alguns clássicos ainda hoje utilizados, sendo, do nosso ponto de vista, um bom ponto de partida para os que se querem iniciar neste fantástico mundo que é o mundo da montagem de plumas.

Agora, todos a pôr a vossa criatividade em acção, para criar as melhores e mais eficazes plumas do planeta!
Lembrem-se sempre de o peixe soltar para o voltar a apanhar!

 
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