Segredos da Pluma - Pesca à pluma/mosca/flyfishing em Portugal.

E porque ler é importante...

"Se fosse à pesca só para apanhar peixes, há muito que o tinha deixado de fazer..."  Ernest Hemingway

Newsletter

Se não está inscrito no nosso site, subscreva a Newsletter e receba na sua caixa de correio as novidades do site.



Faixa publicitária
Baby Tarpon
Escrito por José Rodrigues   
Domingo, 08 Abril 2007 15:27

Algo com que se sonha todos os dias é algo que se torna inesquecível quando se torna realidade. Foi com este espírito que vivi cada momento desta viagem inesquecível, em que vi grandes peixes, cravei grandes peixes e perdi grandes peixes, na companhia de pessoas únicas que tornaram esta viagem única.

A minha primeira, e pequena, experiência com tarpons foi há alguns anos, mais precisamente quanto tinha 18 anos de idade. Foi quando decidi fazer a minha primeira viagem, que, no fundo, não passou de uma pequena aventura, acompanhado da minha cana de pluma. Visitei um local chamado Laguna de Tacarígua, em Rio Chico, onde as populações de tarpons são consideráveis, ainda que de pequenas dimensões.

 

 

Alguns anos depois, decidi tentar de novo a minha sorte, mas agora noutro local, Los Roques, onde já tinha ido antes pescar o bonefish. Escrevi um artigo sobre essa pesca, que podem ler no site. Mas nessa viagem não tive a oportunidade de pescar o tarpon, porque não era a melhor altura do ano. Não tive sequer o prazer de ver algum. Desta vez foi diferente. No dia de chegada, sabendo de antemão que os tarpons andavam por ali, fui até à praia, onde me sentei durante cerca de meia hora, a olhar para aquele mar maravilhoso, na esperança de ver algum tarpon perto dos barcos. Felizmente não demorou muito a ver o primeiro “rolling”, depois outro e, de seguida, outro, ou seja, os tarpons estavam ali, viam-se. E logo pensei que iria conseguir o que tanto procurava.

Rolling é o nome que dão ao movimento que o tarpon executa quando vem à superfície para inalar oxigénio da atmosfera. Sim, isso mesmo. Não é um mamífero como a baleia ou golfinho, mas é um peixe que possui esta capacidade, o que lhe permite viver em águas com nível de oxigénio muito baixo. Na realidade, este rolling é um movimento semelhante ao de um golfinho quando vem à superfície respirar. Lembro-me, como se fosse hoje, de ver aqueles longos lombos prateados a romper a superfície e as suas longas e belas barbatanas a desaparecerem com delicadeza na superfície da água.

Como é normal, o sonho vive-se intensamente muitos meses antes da viagem. Iniciei a preparação do material, plumas, baixos de linha, enfim, todo o necessário para conseguir o que tanto procurava, o meu primeiro baby tarpon. E, depois de chegar à ilha, não perdi tempo para ir falar com o Pedro, o guia, para saber como estavam as condições de pesca e para lhe mostrar o material que tinha comigo.

Tive logo três notícias que me fizeram pensar que não iria conseguir o que tanto procurava: a primeira foi que os tarpons andavam por ali, mas não nas quantidades que tinham andado há um mês atrás; a segunda foi que os baixos de linha que tinha não eram adequados e esteve a explicar-me as razões com detalhe; a terceira era em relação às plumas. Tinha plumas boas, mas não eram as mais indicadas para aqueles tarpons, que, sem dúvida, tinham gostos requintados. Mais nada pude fazer que tentar remediar os problemas: a falta de peixe não podia remediar; quanto aos baixos de linha, foi fácil; no que toca às plumas, também, porque, felizmente, alguns guias já possuíam algum material de montagem e consegui uma pluma fantástica para poder usar como modelo.

Sem dúvida que o melhor sítio para se apanharem tarpons grandes em Los Roques é junto à praia de Grand Roque, a ilha principal, onde estes se concentram devido à presença de grandes cardumes de pequenos peixes, dos quais se alimentam. Aqui, eles preferem estar à espera que os cardumes de “jacks” venham atacar os pequenos peixes e, seguindo logo atrás dos mesmos, apanham os peixes moribundos ou desorientados deixados por estes predadores implacáveis. Mas, neste local, com a constante passagem de barcos e a presença de pessoas, os tarpons tornam-se muito desconfiados, obrigando a ter alguns cuidados, tanto com os baixos de linha, como com as plumas.

 

 

Em relação aos baixos de linha, segundo o Pedro, o ideal é ser longo, com uns 3m e ser feito de apenas duas secções de nylon, uma de 40Lb que se une à linha principal e uma de 60Lb que se vai unir à pluma e servirá de Shoch Tippet, visto estes peixes terem dentes quase minúsculos, mas que, mesmo assim, durante a luta, cortam o nylon, caso este não seja de um diâmetro considerável. As plumas que temos de utilizar aqui são os “gummys”, que são plumas feitas a partir de um material específico e permitem imitar com perfeição um pequeno peixe. Eu levava comigo vários exemplares de pequeno tamanho para o bonefish e uns de grande tamanho para o tarpon. Mas qual o meu espanto, quando vi que, para o tarpon, o tamanho dos gummys deveria ser pouco maior do que o dos utilizados para o bonefish. Era aqui que estava o problema, pois não tinha nenhum assim na minha caixa.

 

A aventura começa!

Por fim, chegou aquele dia em que nos levantamos com um sorriso de orelha a orelha, a tentar imaginar o que se iria passar, sem dúvida um dia muito feliz, um dia de sonho.

Decidimos ficar durante duas horas com o barco perto do porto, à procura dos tarpons que ali passavam. Escolhi a pluma, atei-a à linha, posicionei-me na proa, tirei linha suficiente do carreto para lançar rapidamente e iniciámos a espera.

Não demorou muito até ouvir “Mira José… aí viene uno… lo ves?”. No momento, não vi nada, porque ele estava mesmo por baixo do cardume dos pequenos peixes, que formavam uma mancha negra, impedindo que se visse o fundo, até que se aproximou mais e o vi. É escusado descrever a sensação. Estava incrédulo e pensava: será verdade que estou aqui a lançar um tarpon? Realizei um lançamento uns três metros à sua frente. Deixei a pluma afundar, quando o tarpon se aproximou. Movi um pouco a pluma, mas não se interessou. Mais oportunidades se seguiram sem sucesso. Daí que decidimos mudar novamente de sítio. Fomos tentar numa grande baía de mangues e águas paradas, onde, normalmente, se encontram tarpons pequenos até 10Kg. Demos a volta à lagoa toda, mas o guia prontamente disse que não valia a pena, porque eles não estavam ali, pois, quando estão, facilmente são avistados. De seguida, fizemos uma viagem de meia hora para outro local mais remoto ainda, uma zona não muito funda, perto de mangues, onde, rapidamente, vimos alguns exemplares de pequeno tamanho, com aproximadamente 2kg, mas que não pareciam muito interessados no que eu lhes estava a oferecer.

 

 

Afastamos então um pouco o barco dos mangues, para uma zona mais profunda, com cerca de 2m de profundidade, onde eu continuava pacientemente na proa, com a cana a postos. De repente, o guia soltou um grito, pois vinha um tarpon com uns 30Kg, segundo ele, na direcção do barco, mesmo junto ao fundo. Via-se na perfeição a mancha esverdeada e imponente a nadar muito calmamente, como se deslizasse perto do fundo arenoso. Aqui, limitei-me a lançar a pluma junto ao barco perto da popa, mesmo na sua trajectória. A pluma afunda calmamente. Quando o tarpon passa, dou dois pequenos toques na pluma e foi incrível a emoção de ver aquele corpo imenso voltar a cabeça e abrir aquela enorme boca. O guia gritou: “clava duro que lo tienes José…”. Prontamente cravei, o tarpon deu meia volta e um salto de 1m fora de água mesmo à minha frente. Ao mesmo tempo, deu uma corrida de tal maneira violenta, que o que mais temia aconteceu: a linha que estava fora do carreto subiu no ar e deu um nó tão grande que não passou na primeira anilha da cana, a mais grossa, que se encontra junto ao carreto. Apenas tive tempo de esticar a cana e ouvir o som de uma linha de 40Lb a partir. E tive muita sorte em não ter partido os anéis da cana. Sim, disse alguns palavrões, coisa normal para o momento. As pernas tremiam como varas verdes e o coração batia a um ritmo acelerado, mas terminei com um grande sorriso, porque, apesar de tudo, estava ali, frente a frente com um tarpon, que, desta vez, me tinha ganho.

E assim terminámos uma manhã de sonho. A tarde foi passada medindo forças com a força épica dos bonefishes, nas praias remotas de cores deslumbrantes e nos flats intermináveis, decorados com estrelas-do-mar.

 

Finalmente o dia chegou!

Mais um dia, mais uma manhã atrás daqueles enormes peixes, que tantas vezes vi nos meus sonhos e que agora tão perto estavam. Parámos de novo junto aos barcos no porto. Os tarpons andavam, mais uma vez, a fazer rolling. Ainda que dispersos, podiam passar a qualquer momento. De repente, passam dois tarpons de bom tamanho a uns 10m de distância. De imediato, lancei a pluma, deixei afundar e dei alguns toques. Mas nada, definitivamente aquele não era o meu peixe. Outros fracassos se seguiram, levando-me a pensar o pior, que não iria conseguir. Decidimos então mover o barco alguns metros para a esquerda, onde a água era ligeiramente mais baixa e o fundo mais claro, por ter apenas areia, pois assim teríamos mais facilidade em vê-los enquanto passavam. Mais uma vez, algum tempo depois, de novo o guia grita: “aí viene otro José…”. Vi-o de imediato. Lancei a pluma uns 3m à frente e deixei-a afundar ao máximo. Quando esta estava mesmo à sua frente, dei dois toques… Ainda me lembro como se fosse hoje! Pela forma como mudou a sua trajectória, naquele momento, pensei que, finalmente, teria chegado a hora. Subiu um pouco e viu-se perfeitamente o momento em que aspirou a pluma. O guia gritou: “fuerteee… clava fuerte… que lo tienes”. E não havia dúvida de que tinha conseguido o mais difícil: cravar o tarpon. Uma rápida corrida de alguns metros e um grande salto fora de água foram suficientes para me deixar sem saber o que fazer. O coração batia descontroladamente e, naquele momento único, tudo era bom: estava apenas eu, a cana e o tarpon. Apenas me lembrei de baixar a cana e de o deixar correr.

 

 

A luta tinha por fim começado. Ouvia-se o som do carreto, enquanto o backing saía a alta velocidade, para acompanhar as suas longas corridas. Um tarpon é sempre um tarpon e iria vender cara a foto que queria. Longos minutos se passaram, alguns muito difíceis, em que pensava que o ia perder, pois estávamos em plena hora de ponta em Grand Roque. Eram muito os barcos que passavam e que podiam cortar a linha com as hélices. Felizmente tudo correu bem: cada minuto da intensa luta ficou gravado em vídeo, mas apenas pensei que iria, por fim, ter a minha foto, quando o guia lhe põe a mão e o iça para o barco. Finalmente tinha um tarpon nos meus braços, um bonito peixe, que depressa foi devolvido ao seu meio, nadando rapidamente para longe. Estava cansado, a manhã para mim tinha terminado ali. Estava, sem dúvida, muito feliz por ter conseguido realizar este sonho. São sonhos como este que me fazem viver com alegria o meu dia a dia. A aventura continuou à tarde com os bonefishes, tal como todos os outros dias que passei naquele paraíso chamado Los Roques.

Um grande abraço a um grande guia chamado Pedro, porque, sem dúvida, nada disto teria sido possível sem ele.

 
Copyright © 2005 - 2010 Segredos da Pluma - Pesca à pluma/mosca/flyfishing em Portugal.. Template: JoomlArt.com - Desenvolvido por Segredos da Pluma